2 de agosto de 2017

Estarrecedor é o Sistema

Sistema aqui é com 'S' maiúsculo mesmo.
Estamos em maus lençóis.

A forma de governo em que vivemos não nos dar condições de melhorar, evoluir, caminhar rumo ao progresso.

O Procurador da República, Deltan Dallagnol, da Força Tarefa da Lava-Jato, compartilhou e estamos copiando aqui a Análise de José Padilha, colunista de O Globo, sobre o *Mecanismo de Exploração da Sociedade Brasileira* (aquilo que todos nós já sabemos mas que agora está bem melhor explicado).

 "A importância da Lava-Jato
Vinte e sete enunciados sobre a oportunidade de desmontar o *mecanismo* de exploração da sociedade brasileira

01) Na base do sistema político brasileiro, opera um *mecanismo* de exploração da sociedade por quadrilhas formadas por fornecedores do Estado e grandes partidos políticos. (Em meu último artigo, intitulado Desobediência Civil, descrevi como este *mecanismo* exploratório opera. Adiante, me refiro a ele apenas como “o *mecanismo*”.)

02) O *mecanismo* opera em todas as esferas do setor público: no Legislativo, no Executivo, no governo federal, nos estados e nos municípios.

03) No Executivo, ele opera via superfaturamento de obras e de serviços prestados ao estado e às empresas estatais.

04) No Legislativo, ele opera via a formulação de legislações que dão vantagens indevidas a grupos empresariais dispostos a pagar por elas.
05) O *mecanismo* existe à revelia da ideologia.

06) O *mecanismo* viabilizou a eleição de todos os governos brasileiros desde a retomada das eleições diretas, sejam eles de esquerda ou de direita.

07) Foi o *mecanismo* quem manipulou as massas para eleger: o PMDB, o DEM, o PSDB e o PT. Foi o *mecanismo* quem elegeu José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

08) No sistema político brasileiro, a ideologia está limitada pelo *mecanismo*: ela pode balizar políticas públicas, mas somente quando estas políticas não interferem com o funcionamento do *mecanismo*.

09) O *mecanismo* opera uma seleção: políticos que não aderem a ele têm poucos recursos para fazer campanhas eleitorais e raramente são eleitos ou re-eleitos.

10) A seleção operada pelo *mecanismo* é ética e moral: políticos que têm valores incompatíveis com a corrupção tendem a ser eliminados do sistema político brasileiro pelo *mecanismo*.

11) O *mecanismo* impõe uma barreira para a entrada de pessoas inteligentes e honestas na política nacional, posto que as pessoas inteligentes entendem como ele funciona e as pessoas honestas não o aceitam.

12) A grande maioria dos políticos brasileiros tem baixos padrões morais e éticos. (Não se sabe se isto decorre do *mecanismo*, ou se o *mecanismo* decorre disto. Sabe-se, todavia, que na vigência do *mecanismo* este sempre será o caso.)

13) A administração pública brasileira se constitui a partir de acordos relativos a repartição dos recursos desviados pelo *mecanismo*.

14) Um político que chega ao poder pode fazer mudanças administrativas no país, mas somente quando estas mudanças não colocam em xeque o funcionamento do *mecanismo*.

15) Um político honesto que porventura chegue ao poder e tente fazer mudanças administrativas e legais que vão contra o *mecanismo* terá contra ele a maioria dos membros da sua classe.

16) A eficiência e a transparência estão em contradição com o *mecanismo*.

17) Resulta daí que na vigência do *mecanismo* o Estado brasileiro jamais poderá ser eficiente no controle dos gastos públicos.

18) As políticas econômicas e as práticas administrativas que levam ao crescimento econômico sustentável são, portanto, incompatíveis com o *mecanismo*, que tende a gerar um estado cronicamente deficitário.

19) Embora o *mecanismo* não possa conviver com um Estado eficiente, ele também não pode deixar o Estado falir. Se o Estado falir o *mecanismo* morre.

20) A combinação destes dois fatores faz com que a economia brasileira tenha períodos de crescimento baixos, seguidos de crise fiscal, seguidos de ajustes que visam conter os gastos públicos, seguidos de novos períodos de crescimento baixo, seguidos de nova crise fiscal...

21) Como as leis são feitas por congressistas corruptos, e os magistrados das cortes superiores são indicados por políticos eleitos pelo *mecanismo*, é natural que tanto a lei quanto os magistrados das instâncias superiores tendam a ser lenientes com a corrupção. (Pense no foro privilegiado. Pense no fato de que apesar de mais de 500 parlamentares terem sido investigados pelo STF desde 1998, a primeira condenação só tenha ocorrido em 2010.)

22) A operação Lava-Jato só foi possível por causa de uma conjunção improvável de fatores: um governo extremamente incompetente e fragilizado diante da derrocada econômica que causou, uma bobeada do parlamento que não percebeu que a legislação que operacionalizou a delação premiada era incompatível com o *mecanismo*, e o fato de que uma investigação potencialmente explosiva caiu nas mãos de uma equipe de investigadores, procuradores e de juízes, rígida, competente e com bastante sorte.

23) Não é certo que a Lava-Jato vai promover o desmonte do *mecanismo*. As forças politicas e jurídicas contrárias são significativas.

24) O Brasil atual está sendo administrado por um grupo de políticos especializados em operar o *mecanismo*, e que quer mantê-lo funcionando.

25) O desmonte definitivo do *mecanismo* é mais importante para o Brasil do que a estabilidade econômica de curto prazo.

26) Sem forte mobilização popular, é improvável que a Lava-Jato promova o desmonte do *mecanismo*.

27) Se o desmonte do *mecanismo* não decorrer da Lava-Jato, os políticos vão alterar a lei, e o Brasil terá que conviver com o *mecanismo* por um longo tempo."

Para repassar livremente!

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