A cultura do descartável: quando tudo vira lixo, até os valores

fevereiro 16, 2026


Neste domingo de carnaval quem tirou um tempinho para ir à casa do Senhor - Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Esperança -, na missa das 17 horas teve a grande oportunidade de refletir, juntamente com o pároco Arimateia, um pouco sobre vida humana na atualidade.

A homilia do pároco se baseou nos ensinamentos cristãos e em um relativo desvio de conduta a ponto da sociedade se tornar uma cultura do descartável.

Vivemos na era do imediato. Tudo precisa ser rápido, prático e, acima de tudo, substituível. A lógica do descartável, antes restrita a objetos como copos plásticos e embalagens, hoje invade praticamente todos os aspectos da vida moderna. Não se trata apenas de consumo: trata-se de mentalidade.

O problema é que a cultura do descartável não se limita ao lixo material. Ela molda relações, compromissos e até princípios. Produtos são feitos para durar pouco, consertar virou exceção e trocar virou regra. A indústria lucra, mas o planeta paga a conta — e nós também.

Estaríamos doente? Cegos? Mais egoístas?

Basta olhar ao redor: celulares trocados a cada ano, roupas usadas poucas vezes, eletrodomésticos com vida útil cada vez menor. A chamada obsolescência programada não é teoria conspiratória, mas uma estratégia econômica. O resultado é um volume crescente de resíduos e uma sociedade viciada em novidades superficiais.

Não é mais o que sou, mas o que tenho. 

O impacto mais preocupante talvez seja invisível. Quando tudo se torna descartável, até as relações humanas entram nessa lógica. Amizades são desfeitas com a mesma facilidade que se deleta um contato. Compromissos são abandonados sem esforço. A paciência — que antes sustentava vínculos duradouros — foi substituída pela pressa.

O pároco Arimateia chegou a falar em fofoca sendo um dos grandes males para os relacionamentos amorosos.

No campo ambiental, os sinais são alarmantes. Rios poluídos, lixões a céu aberto e oceanos repletos de plástico mostram que não existe “fora” para onde jogamos nosso lixo. O descartável nunca desaparece; ele apenas muda de lugar. E, muitas vezes, volta em forma de enchentes, calor extremo e doenças.

Romper com essa lógica exige mais do que campanhas ecológicas. Exige mudança cultural. Valorizar o durável, reparar em vez de substituir, consumir com consciência. Pequenas atitudes individuais têm impacto coletivo, mas também é preciso cobrar políticas públicas e responsabilidade das empresas.

A cultura do descartável é, no fundo, uma cultura da indiferença. Indiferença com o meio ambiente, com o trabalho humano e até com o futuro. Se continuarmos tratando tudo como substituível, corremos o risco de nos tornarmos também descartáveis diante das consequências que nós mesmos criamos.

Talvez esteja na hora de reaprender algo simples: nem tudo deve ser jogado fora. Há coisas que precisam ser cuidadas, preservadas e valorizadas. Inclusive o mundo em que vivemos.

"Posso não concordar com nenhuma palavra que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-la" - Voltaire

You Might Also Like

0 comentários