Entre o afeto e o barulho: a contradição entre amar os animais e defender os fogos de artifício
fevereiro 16, 2026Em tempos de crescente conscientização sobre o bem-estar animal, tornou-se comum ver pessoas defendendo a proteção dos animais com discursos emocionados, campanhas nas redes sociais e até ações concretas de adoção e cuidado.
No entanto, essa mesma sensibilidade parece desaparecer quando o assunto são os fogos de artifício. A dualidade é evidente: muitos que dizem amar os animais seguem defendendo ou naturalizando espetáculos pirotécnicos que causam sofrimento real e comprovado.
Os fogos de artifício são frequentemente associados à alegria, celebrações e tradições culturais. Festas populares, comemorações religiosas e eventos públicos utilizam o barulho como símbolo de festa. Porém, por trás do brilho no céu, existe uma realidade pouco debatida: o impacto direto sobre os animais. Cães e gatos, por exemplo, possuem audição muito mais sensível que a humana. O estrondo que para alguns dura segundos pode representar minutos de pânico, crises de ansiedade, fugas desesperadas e até mortes por parada cardíaca.
Não são apenas os animais domésticos que sofrem. A fauna silvestre também é afetada. Aves abandonam ninhos, colidem com estruturas e se desorientam. Animais em áreas rurais entram em estado de estresse intenso, prejudicando sua saúde e até a produção, no caso de rebanhos. Ainda assim, essa realidade muitas vezes é ignorada em nome da tradição ou do entretenimento momentâneo.
Essa contradição revela algo maior: uma ética seletiva. Amamos os animais quando estão próximos, quando têm nome e convivem conosco. Mas relativizamos seu sofrimento quando ele exige abrir mão de costumes arraigados. É mais fácil postar fotos com pets do que repensar práticas coletivas que geram desconforto social ao serem questionadas.
Isso não significa que a cultura e as celebrações devam ser abandonadas, mas sim repensadas. Hoje existem alternativas silenciosas, como fogos de artifício de baixo ruído e espetáculos de luzes com drones e projeções, que preservam o simbolismo da celebração sem impor sofrimento. O verdadeiro avanço civilizatório está justamente na capacidade de adaptar tradições à luz de novos valores.
Ser a favor dos animais não pode ser um sentimento seletivo ou sazonal. Se defendemos o cuidado e a empatia, precisamos levá-los até suas últimas consequências, inclusive quando isso implica rever hábitos coletivos. Amar os animais não é apenas protegê-los no silêncio do lar, mas também garantir que o barulho das nossas festas não seja o terror deles.
Não é motivo de aplausos criar lei que puna agressores de animais ao mesmo tempo que permitem soltar fogos de artifícios barulhentos.
Talvez esteja na hora de escolher de que lado queremos estar: do brilho passageiro no céu ou da coerência entre discurso e prática. Afinal, empatia que depende da conveniência não é empatia — é apenas conforto moral.
"De erro em erro, vai-se descobrindo a verdade" - Freud

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