Médicos dos postinhos não estão visitando os acamados?
agosto 19, 2026Uma cidade revela seu grau de humanidade pela forma como cuida de quem já não consegue bater à porta do serviço público. O paciente acamado não escolheu viver entre quatro paredes. E o SUS, quando funciona como foi pensado, tem a missão de atravessar esse portão.
Porque saúde pública não é esperar que o doente vá ao médico quando ele não consegue sequer sair do quarto.
Moradores da cidade de Esperantina, Piauí, Brasil estão relatando nas redes sociais a ausência dos médicos de postos de saúde dos bairro nas visitas aos pacientes acamados.
Há uma contradição dolorosa em alguns postos de saúde: justamente quem mais precisa de atendimento é quem mais encontra dificuldade para recebê-lo.
Pacientes acamados, idosos sem mobilidade, pessoas com sequelas de AVC, doenças degenerativas ou outras limitações físicas muitas vezes dependem de uma visita médica em casa. Quando essa visita deixa de acontecer, o que está sendo negado não é apenas uma consulta. É a presença do Estado onde a vulnerabilidade é maior.
A Estratégia Saúde da Família foi criada justamente para aproximar a saúde da população. Entre suas diretrizes está o atendimento também no domicílio para pessoas com dificuldade ou impossibilidade de locomoção, organizado conforme a necessidade e a prioridade clínica do paciente.
O governo federal enviou à Esperantina um transporte específico para levar saúde a quem não pode ir ao encontro de algum posto de saúde, à uma unidade de saúde pública.
Os médicos não devem visitar todas as casas, todos os dias, mas os casos que realmente necessitam desse cuidado não podem ser esquecidos.
É fácil dizer para uma família "leve o paciente ao posto". Difícil é empurrar uma cadeira de rodas por ruas esburacadas, cheias de lamas, contratar transporte particular quando mal sobra dinheiro para os remédios ou mover um acamado que depende de duas ou três pessoas para ser colocado em um carro.
Nessas situações, quem acaba assumindo o peso é o cuidador. Filhos deixam de trabalhar, esposas adoecem pelo desgaste físico, vizinhos se mobilizam para conseguir um atendimento que deveria ser organizado pelo próprio serviço de saúde.
A visita domiciliar também permite que o médico conheça a realidade daquele paciente. Dentro da casa ele percebe riscos de quedas, dificuldades na alimentação, problemas com medicamentos e necessidades que jamais apareceriam em uma consulta de dez minutos dentro do consultório. Estudos mostram que esse tipo de atendimento fortalece o vínculo com a família, melhora o acompanhamento de doenças crônicas e contribui para um cuidado mais humano.
É claro que também seria injusto responsabilizar apenas os médicos. Muitos trabalham com agendas lotadas, equipes incompletas, excesso de pacientes e falta de planejamento das secretarias municipais de saúde. A organização das visitas depende da gestão, da classificação de prioridades e de uma equipe integrada.
Mas compreender as dificuldades do sistema não pode servir de desculpa para abandonar quem está preso à própria cama.
"Só sou responsável pelo o que falo, não pelo que você entende" - Renato Russo

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